domingo, 14 de abril de 2013

DORES DO PARTO


O Senhor Jesus compara a vida dos seus discípulos a uma gestação... dolorosa, mas, ao mesmo tempo, cheia de alegre expectativa:
"Em verdade, em verdade, vos digo: chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará. Vós vos entristecereis, mas a vossa tristeza se transformará em alegria. Quando a mulher está para dar à luz, entristece-se porque a sua hora chegou; quando, porém, dá à luz a criança, ela já não se lembra dos sofrimentos, pela alegria de ter vindo ao mundo um homem" (Jo 16,20s).
Jesus refere-se à alegria vazia que pode afetar certos setores da sociedade. Os cristãos não a compartilham para ser fiéis a Deus. Por este motivo podem parecer, ou mesmo sentir-se, tristes.
Que gestação é essa? Responde o Apóstolo: é o formar-se Cristo em nós (cf. Gl 4,19). Com efeito, um gérmen de filiação divina existe em todo cristão desde o Batismo; tende a desenvolver-se até atingir a estatura da plenitude de Cristo (cf. Ef 4,13). Uma vez terminado tal processo, a tristeza se converte em alegria,... a alegria de uma vida levada às duas dimensões rematadas, alegria que ninguém pode arrebatar.
A imagem utilizada pelo Senhor Jesus sugere reflexões:
A vida cristã é ambígua, paradoxal e, por isto, também misteriosa. Sim; por baixo dos véus da fragilidade humana, mortal, encontra-se algo de imortal, uma vida chamada a vencer a precariedade e transfigurá-la. São Paulo diria: trata-se de um vaso de argila portador de imenso tesouro (cf. 2Cor 4,7). A tristeza é prenhe de alegria; a imortalidade é o invólucro da vida mortal. Por isto, o cristão nunca se abate; não existe em seu vocabulário o termo "desânimo"; mesmo nas horas mais aflitivas, ele se lembra de que suas dores são dores de uma gestação e de um parto; quanto mais dolorido é este, tanto mais promissor de fecundidade.
A Sagrada Escritura recorre frequentemente à imagem das dores de parto, a fim de significar a instauração do Reino de Deus; cf. Mt 24,8; 1Ts 5,3; Rm 8,22. Em Ap 12,1-17 uma mulher fulgurante e bela sofre as dores de parto e dá à luz um filho que é o Messias (a Mulher, no caso, é Maria SSma.); depois continua sua obra genitora no deserto, onde é acometida pelo Dragão, que procura abocanhar os outros filhos da Mulher (que, no caso, é a Santa Mãe Igreja). Pois bem, todo cristão é uma microecclesiae (uma Igreja em miniatura), de modo que participa, em sua pessoa, da função maternal da Mulher "Maria-Igreja"; ele forma o Cristo em si, fazendo que o velho homem ceda espaço ao novo homem ou ao segundo Adão. Aliás, diz o Senhor Jesus: "Todo aquele que faz a vontade de meu Pai, este é meu irmão, minha irmã, minha mãe" (Mt 12,50); participa assim, a seu modo, da maternidade singular e modelar de Maria SSma.
Convém lembrar estas verdades no começo de novo ano, que traz seus desafios. Escreve o Apóstolo, consciente do paradoxo da sua existência: "Vivemos como tristes e, não obstante, sempre alegres; como indigentes e, não obstante, enriquecendo a muitos; como nada tendo, embora tudo possuamos" (2Cor 6,10).

NOVO RUMO


O tempo oportuno

Aos 13 de fevereiro tem início o tempo da Quaresma, que tem seu termo final no domingo de Páscoa 31/03. É este o período mais santo do ano ou, como dizem os mestres de espiritualidade, o período-padrão da vida cristã. Com efeito, esta consiste em viver o Batismo e a Eucaristia, ou seja, em participar da morte de Cristo para o pecado e da ressurreição do Senhor para uma vida nova: o cristão se transfere diariamente do velho homem para o homem novo (cf. Ef 4,22-24; 2Cor 5,17) até estar plenamente configurado a Cristo no dia em que seu corpo for ressuscitado à semelhança do corpo de Jesus (cf. Fl 3,20s). Ora, o tempo da Quaresma põe ante os olhos do cristão este programa de modo muito enfático, convidando-o a associar a sua cruz cotidiana à cruz gloriosa do Senhor Jesus.
Quaresma assim entendida é “tempo oportuno” (2Cor 6,2), é graça especial de Deus, que espera dos seus fiéis uma conversão cada vez mais coerente. Aliás, as Escrituras se referem não raro à paciência de Deus, que concede aos homens novos e novos prazos para que realizem mais radicalmente a sua conversão tantas vezes adiada ou superficialmente praticada: “desprezas a riqueza da sua bondade, paciência e longanimidade, desconhecendo que a benignidade de Deus te convida à conversão?” (Rm 2,4; cf. 3,26; 2Pd 3,9). Considerando isto, o escritor cristão Tertuliano († 220 aproximadamente) dizia que Deus é o Modelo da paciência; é o Pai que mais sabe pacientar em relação a seus filhos.
O chamado à conversão ressoa neste ano num mundo agitado e inseguro. Que remédio lhe poderão levar os cristãos? – Sem dúvida, os recursos de ciência e técnica que possui... Mas muito mais ainda:  mais do que de qualquer outra coisa, o mundo precisa de santidade e de santos (cf. 2Pd 3,11s); este é o grande tesouro da humanidade, tesouro que é remédio para os males mais profundos. “Uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro”, dizia sabiamente Elizabeth Leseur. Dez justos teriam obtido a salvação de Sodoma e Gomorra, conforme Gn 18,22s. Ora Deus também hoje procura “dez justos” num mundo que Ele quer salvar.
Os fiéis católicos não podem deixar de perceber esse apelo... Apelo a que reflitam sobre a sua responsabilidade e assumam generosamente a sua vocação à santidade... Santidade que não é outra coisa senão a arte de saber dizer um Sim pronto e magnânimo a todos os sinais da vontade de Deus. “Se fizeres isto, serás salvo... e terás a alegria de, por graça de Cristo, salvar muitos irmãos!”


O ministério petrino

Quando dizemos em nossa Profissão de Fé “Creio na Santa Igreja Católica”, afirmamos que os bispos são os sucessores dos apóstolos e que seu chefe é o bispo de Roma, o Papa. Este artigo de fé precisa ser entendido e aprofundado para podermos perceber o real alcance dele. A missão do Romano Pontífice é a de servir a todos os fiéis, confirmando-os na fé verdadeira e reta e unindo-os no mesmo rebanho de Cristo.
São Pedro na Sagrada Escritura
Os livros do Novo Testamento foram escritos na segunda metade do século I d.C.. Eles são um testemunho escrito, com a assistência do Espirito Santo, da fé da Igreja Apostólica. Os Evangelhos nos revelam bem o destaque dado ao apóstolo Pedro. A razão para isto é sem dúvida a escolha que o Senhor fez de colocá-lo como pastor e guia de sua Igreja (Mt 16,13-20; Lc 22,31-34; Jo 21,15-19). O livro dos Atos dos Apóstolos nos mostra a figura de liderança que São Pedro exerceu na Igreja, deixando claro que Ele viveu de acordo com a vontade de Jesus (At 1,15-26; 2,14-41; 3,1-26; 4,1-22; 8,14-25; 9,31-43; 15,1-35...).
O martírio de São Pedro
Segundo a Tradição, o chefe da Igreja nascente foi martirizado na perseguição do Imperador Nero, entre os anos de 64 e 67. Ele teria morrido crucificado de cabeça para baixo, por seu próprio desejo, na capital do Império, a cidade de Roma. No lugar onde seu corpo foi enterrado surgiu um pequeno templo que se tornou lugar de peregrinação dos cristãos. No século IV, o Imperador Constantino mandou erguer um novo – a Basílica de São Pedro.  No século passado, as pesquisas arqueológicas realizadas no subsolo desta Basílica confirmou que o corpo do apóstolo está realmente enterrado lá.
A Primazia da Igreja de Roma
Alguns escritos cristãos antigos nos mostram a importância da Igreja de Roma e de seu Bispo para manter a unidade e decidir as questões de fé. A carta de São Clemente, Bispo de Roma, no final do século I, destaca a autoridade e o primado desta Igreja sobre as outras. Santo Inácio de Antioquia escreve à Igreja de Roma se dirigindo a ela como aquela que “preside à caridade”, sinalizando a preeminência desta. Por conta das questões da data da Páscoa, na metade do século II, o Bispo de Roma, São Vitor, por sua autoridade, foi quem definiu esta questão. Santo Irineu, no final do século II, no seu livro Contra as Heresias, afirma a autoridade romana e o seu papel de confirmar e guardar a doutrina.  
Por conta do trabalho missionário e do martírio de São Pedro e de São Paulo, a Igreja de Roma foi considerada aquela principal entre as outras. Ela recebeu a doutrina diretamente das duas grandes colunas da Fé cristã. Por isso, recebeu a missão de confirmar a fé e os costumes das outras comunidades a partir dos ensinamentos recebidos e guardados dos Apóstolos. Cada comunidade devia estar em consonância com a Igreja de Roma, pois esta era encarada como a medida da doutrina correta e genuína.
A sucessão do ministério
Santo Irineu, ainda no Contra as Heresias, legou uma lista com a sucessão dos Bispos de Roma, ou seja, os primeiros Papas. Segundo ele, Pedro e Paulo confiaram a Lino o ministério episcopal. Após Lino veio Anacleto, Clemente, Evaristo, Alexandre, Sisto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto, Sotero, Eleutério. Ora, já desde o século II ficou registrado o nome dos doze primeiros sucessores de São Pedro como sinal da importância desta cátedra. Assim, aparece o valor desta Igreja e de seu Bispo.
Ao longo da História da Igreja, nós já tivemos 263 sucessores de Pedro. Ele pode ser chamado de Papa (título carinhoso que remonta a palavra pai); Pontífice (por ser o representante máximo na terra do Povo de Deus); Servo dos servos (destacando que sua função é de serviço aos cristãos); Bispo de Roma (quem recebe a presidência da Igreja de Roma se torna o chefe da Igreja Universal); e, Vigário de Cristo (ele é o representante máximo de Cristo cabeça presidindo seu Corpo na terra).
As funçõs do Romano Pontífice
O Papa é a cabeça do Colégio Episcopal, o Vigário de Cristo e o Pastor da Igreja Universal. Ele é o representante de Cristo na terra. Cabe a ele colocar em prática tudo aquilo que o Senhor pediu. Ele exerce a função de ensinar o Povo de Deus e, para isto, goza da infalibilidade pessoal quando, em seu magistério extraordinário, define algo em matéria de fé e de moral. Além disto, ao seu magistério ordinário, apesar de não ser infalível, deve ser dado assentimento religioso da vontade e da razão. O Bispo de Roma é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade da Igreja. É ele quem, ensinando a verdade, coloca a medida para todos os católicos. Se alguém ou algum grupo se coloca contra o Papa, se coloca contra a própria Igreja de Jesus Cristo.
Para aprofundar...
Indicamos a leitura do CIC, nos nos 874-896; do Compêndio do Catecismo, pergunta 182; do YouCat, perguntas 141 a 143; e, da Lumen Gentium, dos parágrafos 19 ao 27.